A Vaca e o Brejo

Vaca no brejo é rua sem saída, porta sem trinco, é cobra fumando.

sábado, março 11, 2006

A Vaca e o Brejo não tem títulos nos posts. Isto é proposital. É que o que mais sei fazer são bons títulos. Depois eles são desperdiçados e morrem em textos inferiores. Como A Vaca não é assassina, livra os bons títulos da agonia.

Pois eu pensava ser o único, mas um amigo meu na Panela, que é uma lista da internet que não é para qualquer um, tem a mesma mania. E escreveu um texto genial sobre isto. Como eu ando sem inspiração transcrevo o texto dele e os desdobramentos.

O Momento em que Acordas.

By Arnaldo

Algumas vezes me sinto um mestre em títulos. Em geral depois de escrever o título é que vou pensar em alguma coisa sobre o assunto evocado. Sai qualquer coisa, uma fieira de palavras é também uma cabala. Mas desta vez pensei antes.

Afinal para quê acordar? Não é tão bom dormir? Vontade de dormir quando acordado é fácil, mas vontade de acordar ninguém tem ou sente quando está dormindo. Talvez lá, uma vez, o tio de um amigo tenha tido um enteado que..., mas assim, pessoas normais e corriqueiras como eu, não. Por inferência, os mortos não querem estar vivos.

Vontade de consciência sem consciência não rola e o Sartre podia ter incluído essa bobagem naquela gozação filosófica que é O Ser e o Nada (eu curto o cara como romancista e o considero entre os melhores, mas como filósofo é só ler o Diário de Uma Guerra Estranha para sentir a armação da gozação, ou talvez da pura besteira).

Vai daí, um aplique óbvio. Manual de Gestos para Acordar. Não um kata(?) completo... algo mais simples, mas que necessite que o elemento esteja acordado e esperto ( transar não vale, a menos de filmagem ou ritual econômico, ninguém transa esperto ).

Lavar o rosto com as costas da mão pode ser interessante. Algo nessa linha e tudo oferecido como um curso como tantos de Hipnologia, Yoga-menstrual, etc...

É uma grande sacanagem embutir na rotina de alguém um pensamento do qual a vítima sempre vai lembrar e é totalmente inútil e prejudicial. Lavar o rosto com as costas da mão é uma experiência inesquecível pela complexidade e perigo. Deus é outra.


Aí o Ico retrucou, sem colocar título:

Pos Arnaldo,

Falas em lavar o rosto como experiência inesquecível, complexidade, perigo... E, no rastro, vem Deus. Ai, eu meio dormindo, mas recém-acordado, lembro de uma reflexão que penso ser do Morin. Ele escreveu que, ser o universo finito ou infinito, não muda nada em relação à irritação que a certeza causaria ao intelecto. Aqui, penso eu, a incerteza do acordar não deixa de ser um motor contra a certeza do dormir, até amanhã ou até não mais.

E Deus... Haverá de ser irrritante para o sapiens ter a certeza de que ele existe. Ou de que não passa de uma muleta antropológica. Nem todas, mas algumas certezas, notadamente as que envolvem complexidades, são irritantes. Mais até do que banhar-se em cinzas humanas. E chorar não resolve, pelo singelo motivo de que é possível enxugar lágrimas tanto com a palma como com as costas da mão.


E levou o retruco do Arnaldo.

Ai O.

"... é possível enxugar lágrimas tanto com a palma como com as costas da mão."

dependendo do contexto pode ser uma conclusão metafórica e tanto, de qualquer forma é uma frase que já valeu os textos que levaram a ela.


De repente, o Bro, que é um muito competente estraga-festa, meteu a colher, com um título sugestivo:

A inconsutil dureza do ser

Tal frase é e será sempre, necessariamente, uma metáfora:

Lágrimas não se enxugam, não se secam.

Lágrimas só são e só serão lágrimas na esfera do olho (terrível trocadilho, intencional ainda por cima). Enquanto na conjuntiva, derreando-se sobre o tarso, eventualmente ate o limite extremo de um cílio, serão lágrimas. Ao escorrer, na face, ao pingar onde pinguem se pingarem, fora do olho lágrimas são não mais que uma umidade corporal. Como saliva, suor, sebo. Aquela água, fora do olho, não tem mais identidade.

Não se pode enxugar lágrimas.


Ao que a To, que tomou banho em piscina infestada de cinzas humanas perguntou ansiosa:

E o sal, onde fica?
Tem mais sal que água.
Esse negócio de não poder
enxugar me deixou desolada.
O Ico voltou à carga, provocando o maldito estraga-festas:

Tecnólogos vestidos a caráter,
trazem conceitos pra matar o germe
de um devaneio matinal cheio de humores.
Com vademécum portado a tiracolo,
vêm fazer troça, com sombras exatinas,
sem perceber que o bom da purpurina
é quando cintila solta, sem beijar o solo.
Fica tranquila, filha de alemão,
podes enxugar todas que tu queiras,
não deixe que um guru fora de hora,
te leve aos braços da desolação.
Aceita o ensinamento (um quase apelo):
lágrima se enxuga, sim senhora.
Tudo o mais que se diga é enxugar gelo.


Tal qual um Erasmo de um Roberto Carlos, o Arnaldo ajudou:


...lágrimas frias,
quase gelo escorrendo pelo pelo...

E o Ico complementou:

Lágrima quente:
rio de rímel.
Qualquer ponte é inverossímil.


2 Comments:

  • At 2:13 PM, Blogger Filipe Limas said…

    Vou te dar uma dica de jornalista, ou quase isso: faz o título depois do texto. Não que isso signifique textos ou títulos melhores. Eu não sou bom em títulos.

     
  • At 10:32 PM, Blogger Filipe Limas said…

    Cara, só agora li tudo. Quase tudo muito bom. Incrível a sorte que vocês tem, de ler coisas assim. Mas sempre tem alguém pra tentar uma explicação simplista, pra algo que não tem explicação.

     

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